quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um novo olhar para o bairro

Faz um tempão que não escrevo e não foi por preguiça! É que eu e meus grupos de trabalho estivemos envolvidos na confecção de uma maquete, que demorou mesmo para sair.

A proposta deste trabalho surgiu dos pedidos das crianças e jovens, logo que comecei a dar aulas para os grupos no projeto e achei interessante poder embarcar nesse trabalho conjunto. Desde cedo percebi que, assim como eu, meus grupos também já fazem seus trajetos no bairro onde vivem quase que automaticamente e, infelizmente, a automatização, seja lá do que for, vai nos roubando um pouco da capacidade de enxergar, encantar, ver o novo, reparar o velho e questionar uma porção de coisas.

Dei-me conta também de que a realização de uma maquete era uma grande e bonita oportunidade de (re)conhecimento do bairro através do olhar das próprias crianças e jovens com os quais trabalho. Uma ampla soma de olhares, que até então eu não sabia onde poderia nos levar.

O início do processo não foi fácil. Os mapas da região que pesquisamos na internet nos pareciam complicados, bem distintos da realidade das vielas do Niterói e não continham o nome de ruas e de entranhas da região que eram muito importantes para meus grupos. Mas rapidamente algumas pessoas lembraram que no Posto de Saúde havia uma planta artesanal do bairro. Então, fomos ao Posto de Saúde para olhar a tal planta e ter ideias para os primeiros passos de nossa maquete.

Ao observar a planta artesanal do Posto de Saúde, percebemos que ela era mais interessante e rica que os confusos mapas que havíamos pesquisado na internet, pois nela apareciam árvores, escolas, diferentes tipos de piso, o adorado campo de futebol, espaços religiosos e mais uma porção de coisas com as quais os grupos imediatamente se identificaram.

E descobrimos também que havia outra porção enorme de coisas com as quais os grupos se identificavam que não apareciam no mapa artesanal (a casa de cada um dos participantes dos grupos, as queridíssimas lojas de pipas e lan houses, os mercados, a fábrica de chupetinha, lugares gostosos para comer, postes de iluminação, carros, ônibus etc.). Foi essa descoberta que determinou o ponto de partida da nossa maquete: faríamos uma miniatura do bairro colocando nela, além do traçado das ruas, todas as coisas que realmente faziam sentido para nós no bairro. Para isso, todos precisaríamos percorrer o Jardim Niterói para fazer um levantamento do que nos fazia sentido incluir na maquete.

A partir daí, durante mais de um mês nosso trabalho aconteceu pelas ruas, numa série de caminhadas com registros fotográficos e escritos de cada saída. Tudo feito pelas crianças e jovens.

Senti que esse levantamento e registros permitiram, naturalmente, uma enorme aproximação entre mim e os participantes dos grupos, entre eles mesmos e com a comunidade. Houve também uma nova apropriação do meio onde vivem.

Determinadas ruas, que eram ignoradas por muitos, passaram a ser ruas onde moram e trabalham pessoas conhecidas, tornando-se mais do que o espaço pelo qual apenas se passa para chegar a determinado lugar. Algumas outras ruas revelaram-se verdadeiras galerias de arte a céu aberto, com lindas vielas cheias de graffiti, que foram saboreadas com calma por todos nós. Em outros casos, caminhos sinuosos revelaram-se como bons atalhos, fazendo-nos perceber que algumas casas de amigos e escolas não ficam tão longe quanto parecem. E pontos de referência agora são usados nas nossas indicações de caminhos quando não nos lembramos bem do nome de uma rua, pois foram detectados por nossos olhares - que abandonaram um jeito mais automático de observar o mundo.

Houve também um fortalecimento e valorização dos conhecimentos de cada membro dos grupos, pois com as visitas, o morador da casa visitada sempre compartilhava (orgulhosamente!) algo que sabia ser interessante na sua rua ou nas imediações, possibilitando que o restante dos grupos ampliasse seu conhecimento com relação ao bairro.

E depois de pouco mais de um mês como andarilhos, chegou o tempo de construir nossas maquetes. Caixinha de fósforo por caixinha de fósforo.



Vista aérea de uma das maquetes

A viela de graffiti não escapou dos nossos olhares