quinta-feira, 29 de outubro de 2009

As folhas da nossa terra


Esses dias me dei conta de ando achando muitas penas de aves de duas semanas para cá. Não sei se é uma simples coincidência ou se é meu olhar que anda mais atento... Ou é o Manoel de Barros que, silenciosamente, trabalha dentro de mim, despertanto meus sentidos.

Pausa para buscar Manoel de Barros na estante... Com ele relembro que eu fui criada no jardim e que aprendi a gostar das coisas do chão e da terra.

Engraçados os caminhos da vida... Estou aqui falando do Manoel de Barros, das penas que venho encontrando, da menina de jardim que fui e, há três dias atrás, assistindo um DVD que recuperou as películas antigas em Super 8mm da minha família, fiquei rindo ao relembrar o prazer que tinha a cada vez que descobria um tatu bola caminhando pela terra, um formigueiro novo crescendo na grama ou quando era época das pequenas frutinhas vermelhas aparecerem nas árvores.

Há muitos anos não vivo mais na casa da minha infância, mas sou capaz de lembrar cada um dos seus cantos, seus cheiros, plantas, esconderijos, das épocas e disposição das taturanas pelos muros e dos passeios prediletos das lagartixas. E penso nisso tudo com um carinho enorme, de quem se apropriou de um espaço que será permanente na lembrança.

Olho para meu grupo de alunos hoje e percebo que não importam os quintais. As brincadeiras e curiosidades de criança são sempre parecidas... Entram jogos eletrônicos, computadores, cada momento histórico tem suas características, mas desde que o mundo é mundo, acho que essa curtição de brincar com o que sempre existiu, com as coisas simples, segue viva.

Tomada pelo olhar que tem encontrado as penas de árvores, por Manoel de Barros, pelas recordações da infância, quis brincar de novo e me convidei para fazer parte dos meus grupos de crianças.

Fazia um dia de sol lindo e fui, com as crianças, olhar as coisas do chão e do ar que existem nesse bairro onde trabalho e que, aos poucos, vou conhecendo.

Descobri muitas cores, formas e uma porção de outras coisas caminhando pelas ruas, mas a descoberta mais importante foi a de que as crianças deixaram seus quintais para ver outros quintais e que, assim como tenho visto penas aos montes, encontraram plantas, esconderijos, cantos e cheiros que nunca repararam.

Olhares atentos, coletamos uma floresta na nossa caminhada. Flores e folhas de tudo que era tipo. A partir delas, recriamos mundos: um que existe mesmo e outro que existe também, mas que vive só na imaginação de cada um de nós.







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