quarta-feira, 24 de março de 2010

Apresentação

Olá,

Meu nome é Claudia, tenho 32 anos e trabalhei por muitos anos como assessora pessoal e empresarial, enquanto mantinha meus estudos na área de artes plásticas e minhas aventuras culinárias na cozinha, duas de minhas maiores paixões nesta vida.

Um dia, recebi uma proposta para atuar como professora particular de artes e culinária. As alunas eram as filhas de um casal de estrangeiros - duas meninas de 4 e 6 anos. Topei o trabalho e durante os quase dois anos seguintes, chegava a cada dia mais e mais encantada em casa com os trabalhos desenvolvidos pelas crianças e com elas próprias.

Quando chegou a hora da família de estrangeiros voltar para seu país de origem, ingressei num Projeto de uma Ong na Zona Sul de São Paulo, onde trabalho com envolvimento e prazer como educadora de artes plásticas e culinária para grupos de crianças e jovens de 8 a 18 anos.

Aqui neste espaço é possível acompanhar um pouco de algumas produções que já desenvolvi com crianças/jovens, uma breve descrição sobre as técnicas utilizadas em algumas oficinas e imagens dos trabalhos.

Atenciosamente,

Claudia Zelmanovits
claudiazelman@terra.com.br
tel.: 11 9659.7746

terça-feira, 23 de março de 2010

Oficina de camisetas

Em breve teremos nosso carnaval fora de época e decidimos fazer, ao invés de fantasias, camisetas customizadas.

Não sabemos a origem das camisetas customizadas para o carnaval, mas sabemos que no Nordeste elas vivem presentes nos blocos de rua. É comum que as pessoas façam cortes e nós para marcar tiras e decotes em suas camisetas.

Pegamos carona na ideia, mas como estávamos com vontade de ter algo mais personalizado, resolvemos que cada um teria uma camiseta para chamar de sua!

Assim, soterrados por retalhos, tesouras, cola para tecido, sobras de lãs, barbantes, fitas e influenciados pelo carnaval de rua do Nordeste e pelos próprios companheiros de grupo, os trabalhos foram acontecendo nos tecidos.









terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Carnaval

Esse ano teremos carnaval fora de época, com um baile na sede do Projeto.

Os grupos de artes estão envolvidos na produção deste evento.

Começamos homenageando duas festas da cultura popular brasileira: Festa do Divino e Bumba-meu-boi.

Além de conhecermos melhor essas festas, que tanto guardam de nossa cultura e jeitos de ser, tivemos a oportunidade de criar nossos bois e símbolos do Divino e, ao mesmo tempo, avançar na ampliação de nossos repertórios imagéticos, sendo nutridos e influenciados tanto pelo belíssimo trabalho do fotógrafo Albani Ramos como pelo da Oficina de Agosto.



Os bois surgiram de uma história bonita e, embora eu saiba que o texto vai ficar longo, quero compartilhá-la.

Tudo começou com meu ingresso nesse projeto, quando fui pesquisar mais sobre Cultura Popular e me deparei com a Biblioteca Pública Belmonte. Lá chegando, encontrei alguns livros com os quais me conectei imediatamente. Mas não foram só eles que me encantaram nesta biblioteca e, sim, uma pessoa verdadeiramente incrível que trabalha no local e chama-se Dorinha. A Dorinha é dessas pessoas bonitas por dentro e por fora.

Passei horas na Belmonte, sobretudo pelo acolhimento e deliciosa prosa com a Dorinha. E ao me despedir dela, recebi, de presente, um boi que ela costuma fazer com as crianças e jovens que visitam a biblioteca.

Acho que a Dorinha não tem ideia disso (e vai ter muito em breve!), mas o presente significou muito para mim e me emocionou mais ainda. Não só pela sua beleza, mas porque eu vim para casa com aquele boi nas mãos e lágrimas nos olhos. Mais do que simbolizar uma generosidade gratuita (e tão rara!), o presente chegou com gosto doce, fez-me achar que eu tinha mesmo que trabalhar com Cultura Popular e que fazia sentido estar naquela Biblioteca.

Um ano se passou e achei que tinha que comemorar o aniversário desse encontro não só com uma homenagem ao boi do bumba-meu-boi, mas também à Dorinha, que será pessoa inesquecível nessa vida.

E assim comemorei: fiz, com meus grupos, uma porção de bois irmãos do boi da Dorinha... Depositei nesses bois a esperança de que esses tempos de projeto possam ter sido tão significativos para meus grupos quanto foi para mim.

Que a Dorinha possa receber, assim que eu lhe entregar o boi que estou fazendo para ela, toda a energia boa que recebi das mãos dela há um ano atrás. E meu muitíssimo obrigada também pelo pequeno grandioso encontro.



Preparando a estrutura dos bois...


Começando a vestir e decorar os bois...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Aulas abertas

Dezembro e janeiro: ao mesmo tempo em que muitas crianças e jovens viajam para visitar parentes mais ou menos distantes, chega gente de fora da comunidade para também visitar parentes e passar as férias longe de suas casas.

A cada dia vejo aparecerem conhecidos rostos acompanhados de muitos novos para participar das oficinas de artes. Alguns surgem apenas para um ou dois encontros. Outros vão ficando por um mês ou mais.

Vejo esse movimento e procuro trabalhar num esquema de aulas abertas, com começo, meio e fim num mesmo encontro. É um jeito de receber os que chegam num grupo que já está engrenado e de possibilitar também que algumas crianças bem pequenas possam participar das atividades.

Gosto especialmente dessas misturas que acontecem nesse período. Percebo que as crianças mais velhas e jovens têm facilidade e apreciam ajudar as crianças pequenas em suas produções. Tem uma coisa de ser gratificante compartilhar o conhecimento e a destreza. E as crianças pequenas trazem combinações de cores, traços e jeitos muito livres para os dias e noto que isso influencia os maiores, possibilitando uma leveza e liberdade de expressão mágicas para os encontros.

Jogos, brinquedos, pequenos blocos e enfeites para o natal foram alguns temas das aulas abertas.



Enfeite de natal

Pássaros

Cobras

Bloco

Jogo de varetas

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um novo olhar para o bairro

Faz um tempão que não escrevo e não foi por preguiça! É que eu e meus grupos de trabalho estivemos envolvidos na confecção de uma maquete, que demorou mesmo para sair.

A proposta deste trabalho surgiu dos pedidos das crianças e jovens, logo que comecei a dar aulas para os grupos no projeto e achei interessante poder embarcar nesse trabalho conjunto. Desde cedo percebi que, assim como eu, meus grupos também já fazem seus trajetos no bairro onde vivem quase que automaticamente e, infelizmente, a automatização, seja lá do que for, vai nos roubando um pouco da capacidade de enxergar, encantar, ver o novo, reparar o velho e questionar uma porção de coisas.

Dei-me conta também de que a realização de uma maquete era uma grande e bonita oportunidade de (re)conhecimento do bairro através do olhar das próprias crianças e jovens com os quais trabalho. Uma ampla soma de olhares, que até então eu não sabia onde poderia nos levar.

O início do processo não foi fácil. Os mapas da região que pesquisamos na internet nos pareciam complicados, bem distintos da realidade das vielas do Niterói e não continham o nome de ruas e de entranhas da região que eram muito importantes para meus grupos. Mas rapidamente algumas pessoas lembraram que no Posto de Saúde havia uma planta artesanal do bairro. Então, fomos ao Posto de Saúde para olhar a tal planta e ter ideias para os primeiros passos de nossa maquete.

Ao observar a planta artesanal do Posto de Saúde, percebemos que ela era mais interessante e rica que os confusos mapas que havíamos pesquisado na internet, pois nela apareciam árvores, escolas, diferentes tipos de piso, o adorado campo de futebol, espaços religiosos e mais uma porção de coisas com as quais os grupos imediatamente se identificaram.

E descobrimos também que havia outra porção enorme de coisas com as quais os grupos se identificavam que não apareciam no mapa artesanal (a casa de cada um dos participantes dos grupos, as queridíssimas lojas de pipas e lan houses, os mercados, a fábrica de chupetinha, lugares gostosos para comer, postes de iluminação, carros, ônibus etc.). Foi essa descoberta que determinou o ponto de partida da nossa maquete: faríamos uma miniatura do bairro colocando nela, além do traçado das ruas, todas as coisas que realmente faziam sentido para nós no bairro. Para isso, todos precisaríamos percorrer o Jardim Niterói para fazer um levantamento do que nos fazia sentido incluir na maquete.

A partir daí, durante mais de um mês nosso trabalho aconteceu pelas ruas, numa série de caminhadas com registros fotográficos e escritos de cada saída. Tudo feito pelas crianças e jovens.

Senti que esse levantamento e registros permitiram, naturalmente, uma enorme aproximação entre mim e os participantes dos grupos, entre eles mesmos e com a comunidade. Houve também uma nova apropriação do meio onde vivem.

Determinadas ruas, que eram ignoradas por muitos, passaram a ser ruas onde moram e trabalham pessoas conhecidas, tornando-se mais do que o espaço pelo qual apenas se passa para chegar a determinado lugar. Algumas outras ruas revelaram-se verdadeiras galerias de arte a céu aberto, com lindas vielas cheias de graffiti, que foram saboreadas com calma por todos nós. Em outros casos, caminhos sinuosos revelaram-se como bons atalhos, fazendo-nos perceber que algumas casas de amigos e escolas não ficam tão longe quanto parecem. E pontos de referência agora são usados nas nossas indicações de caminhos quando não nos lembramos bem do nome de uma rua, pois foram detectados por nossos olhares - que abandonaram um jeito mais automático de observar o mundo.

Houve também um fortalecimento e valorização dos conhecimentos de cada membro dos grupos, pois com as visitas, o morador da casa visitada sempre compartilhava (orgulhosamente!) algo que sabia ser interessante na sua rua ou nas imediações, possibilitando que o restante dos grupos ampliasse seu conhecimento com relação ao bairro.

E depois de pouco mais de um mês como andarilhos, chegou o tempo de construir nossas maquetes. Caixinha de fósforo por caixinha de fósforo.



Vista aérea de uma das maquetes

A viela de graffiti não escapou dos nossos olhares




quinta-feira, 29 de outubro de 2009

As folhas da nossa terra


Esses dias me dei conta de ando achando muitas penas de aves de duas semanas para cá. Não sei se é uma simples coincidência ou se é meu olhar que anda mais atento... Ou é o Manoel de Barros que, silenciosamente, trabalha dentro de mim, despertanto meus sentidos.

Pausa para buscar Manoel de Barros na estante... Com ele relembro que eu fui criada no jardim e que aprendi a gostar das coisas do chão e da terra.

Engraçados os caminhos da vida... Estou aqui falando do Manoel de Barros, das penas que venho encontrando, da menina de jardim que fui e, há três dias atrás, assistindo um DVD que recuperou as películas antigas em Super 8mm da minha família, fiquei rindo ao relembrar o prazer que tinha a cada vez que descobria um tatu bola caminhando pela terra, um formigueiro novo crescendo na grama ou quando era época das pequenas frutinhas vermelhas aparecerem nas árvores.

Há muitos anos não vivo mais na casa da minha infância, mas sou capaz de lembrar cada um dos seus cantos, seus cheiros, plantas, esconderijos, das épocas e disposição das taturanas pelos muros e dos passeios prediletos das lagartixas. E penso nisso tudo com um carinho enorme, de quem se apropriou de um espaço que será permanente na lembrança.

Olho para meu grupo de alunos hoje e percebo que não importam os quintais. As brincadeiras e curiosidades de criança são sempre parecidas... Entram jogos eletrônicos, computadores, cada momento histórico tem suas características, mas desde que o mundo é mundo, acho que essa curtição de brincar com o que sempre existiu, com as coisas simples, segue viva.

Tomada pelo olhar que tem encontrado as penas de árvores, por Manoel de Barros, pelas recordações da infância, quis brincar de novo e me convidei para fazer parte dos meus grupos de crianças.

Fazia um dia de sol lindo e fui, com as crianças, olhar as coisas do chão e do ar que existem nesse bairro onde trabalho e que, aos poucos, vou conhecendo.

Descobri muitas cores, formas e uma porção de outras coisas caminhando pelas ruas, mas a descoberta mais importante foi a de que as crianças deixaram seus quintais para ver outros quintais e que, assim como tenho visto penas aos montes, encontraram plantas, esconderijos, cantos e cheiros que nunca repararam.

Olhares atentos, coletamos uma floresta na nossa caminhada. Flores e folhas de tudo que era tipo. A partir delas, recriamos mundos: um que existe mesmo e outro que existe também, mas que vive só na imaginação de cada um de nós.







sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Oficinas de confecção de tintas e materiais 1

A primavera chegou e, com ela, os espaços internos parecem ficar insuficientes para os sopros de vida trazidos pelo sol.

Os recursos necessários ao fazer artístico não moram somente nas lojas de materiais ou no rico lixo que desprezamos diariamente. Estão nos nossos caminhos, na nossa cozinha, no quintal do vizinho, nas praças, na imaginação.

Temos aproveitado os dias azuis para um importante trabalho de pesquisa, catalogação e coleta de recursos alternativos para nossas oficinas, que vão nos trazendo novas e gostosas possibilidades de trabalho.

Tudo começou com a confecção de um suporte diferente dos que meus grupos estão acostumados : o papel lixa. É fácil encontrá-lo pronto nas casas especializadas em materiais de construção, mas o sabor de produzir nosso próprio papel lixa parece ter sido mais doce.

Cartolinas em mãos, precisávamos descobrir onde encontrar areia para prepararmos o suporte. Bastaram alguns minutos e um canteiro esquecido num espaço da Ong, que ninguém quase olha, não só foi relembrado como passou a ter para nós um outro significado.

Do canteiro veio a areia, que despejamos numa tampa plástica.

Passamos cola nas nossas cartolinas e logo estávamos nos divertindo com o mergulho da cartolina na nossa piscina de areia.




A piscina de areia recebendo o mergulho das cartolinas.

A primeira parte da produção do papel lixa.

Esperamos a cola secar.

A segunda parte da produção: a demão de tinta.


Papel pronto, era chegada a hora de trabalharmos em nosso suporte. Assim, com giz comum e giz de cera em mãos, experimentamos traçados com materiais diferentes dos habituais lápis, canetinha e tintas num papel cheio de "altos e baixos". Percebemos como mudam nossos desenhos a depender dos materiais e suportes que são usados em nossas oficinas, mesmo quando tentamos fazer um desenho parecido com o que fazíamos em folha sulfite com o uso de lápis.



Flor. Giz em papel lixa.


Dinossauro. Giz em papel lixa.

O giz é material com o qual todos têm muita intimidade, mas é incrível acompanhar a reação dos grupos quando usam o giz fora de uma lousa escolar... Até o papel lixa ficou pequeno e acabamos usando o chão do quintal do nosso espaço para novas empreitadas, devidamente fotografadas pelos autores dos trabalhos a fim de preservar suas produções após a lavagem do quintal!



Boneco. Giz no chão.

Boneco. Giz no chão.

Oficinas de confecção de tintas e materiais 2

O fazer artístico pede mais do que suportes. Com isso, temos pesquisado, catalogado e coletado mais e mais recursos disponíveis no meio para produzirmos nossas ferramentas de trabalho.

Os pincéis estiveram em pauta neste mês de saídas de espaços mais fechados.

Como fazer um pincel? Bom, as maneiras são infinitas. O melhor talvez seja começar a pensar na sua confecção levando em conta as intenções que temos para o uso desta ferramenta.

São ótimos os parâmetros que já temos no mundo. Há pincéis de todo tipo: mais finos, mais grossos, mais achatados, mais arredondados... E costumamos usá-los quase que intuitivamente, sem muitas vezes notar que um pincel é diferente do outro porque serve para situações artísticas diferentes e específicas.

Pincéis maiores e mais achatados são ótimos companheiros de pintura de grandes superfícies. Os pequenos, com pelinhos mais duros, são importantes nos trabalhos com maior riqueza de detalhes. Quando as crianças e adolescentes começam a se dar conta desse saber para além da intuição, ganham autonomia não só para conseguir melhores resultados para suas intenções de trabalho, como para criar suas próprias ferramentas, estejam onde estiverem.

As hastes de pincéis podem ser feitas a partir de muitos recursos: galhos de árvores, palitinhos de churrasco ou de sorvete, corpo de canetas que já não possuem mais suas cargas etc. As possibilidades de pelinhos são infinitas: podem vir da tosa dos nossos bichos de estimação, de mato seco, de uma pequena parte de nosso próprio cabelo, de fios que sobram em casa, de uma vassoura... A criatividade e as intenções de cada um é que direcionam nossas escolhas.

Para unir a haste aos pelinhos, mais uma gama de possibilidades: grampeador, cola super bonder, tirinhas de latinhas ou de garrafa pet, alguns outros tipos de adesivos e até amarras fortes com linhas.

Temos sempre tudo tão fácil e pronto ao nosso alcance, que a primeira reação de qualquer criança ou adolescente diante do desafio de construir sua própria ferramenta de trabalho é a de se sentir intimidado. Por isso, para ganhar coragem e dar o primeiro passo construtor de um pincel é importante que se percorra um caminho anterior à confecção dos mesmos, que é um trajeto de descoberta com os grupos de trabalho: cada ferramenta e suporte gera um resultado. O boneco feito com giz num papel lixa pode ser muito similar ao boneco que aparece num sulfite desenhado a lápis, mas os traços sempre serão diferentes e terão características próprias. Não tem boneco certo ou boneco errado. O que temos é um novo boneco a cada alteração de ferramenta ou suporte. Com os pincéis se dá o mesmo.

É bonito quando as crianças e adolescentes se dão conta disso. Os trabalhos ganham nova leveza e todo o atrevimento necessário às descobertas e fazeres artísticos.

E gente sem amarras faz pincel! Cada um vai achando seus jeitos, tem suas ideias e, com segurança, começa a dominar os processos de confecção das ferramentas.

O resultado: mais do que pincéis, construimos obras de arte. Ferramentas funcionais que ganham uma identidade e um cuidado estético interessante de ver.



Criança amarrando pelinhos na haste de seu pincel.

Sim, nós temos e usamos cabelos para fazer pincéis!


Tem gente que parece que já nasceu fazendo pincel!

Agora temos mais e mais possibilidades de traços para trabalhar!


E possibilidades únicas, cheias de identidade.

Oficinas de confecção de tintas e materiais 3

Já andamos nos metendo a fazer suportes e ferramentas para nossos trabalhos, mas o momento mais aguardado era o das tintas, que finalmente chegou!

Fácil entender as crianças e adolescentes: alquimias, melecas e bagunças são sempre adoráveis!

O princípio da brincadeira: desde que tive o desejo de me aventurar nesta busca e confecção dos nossos próprios materiais de trabalho, incentivada pelos meus grupos de artes, eu mesma precisei aprender muitas coisas. Sorte a minha, que sigo me alimentando de saberes e de desafios que fazem meus dias serem sempre diferentes e abarrotados de bons livros, cursos e ótimas surpresas.

Como será que nasceram e ainda podem nascer as tintas?

Lá fui eu com meus grupos visitar o tempo dos homens das cavernas. A história é longa, mas até hoje as tintas, assim como nós, humanos, parecemos nascer da mesma maneira, que muda muito pouco ao longo dos séculos.

É assim: para nascerem algumas tintas precisamos de um pigmento, de um aglutinante e de uma boa e saudável dose de insanidade!

O guache é uma tinta muito comum e que todas as crianças e adolescentes conhecem. Bom começar a transitar pelo conhecido.

Fazer um guache é simples: goma arábica (o tal do aglutinante), pó xadrez (que é o tal do pigmento), um pouquinho de água e uma carga (carbonato de sódio), que empresta consistência para a tinta guache sem interferir muito na vida do pigmento. Se quiser, dá até para colocar uma gotinha de glicerina líquida para um melhor acabamento de superfície quando o guache secar.

O que não é simples é dispor de pó xadrez, carbonato de sódio e glicerina líquida... São produtos que exigem uma ida ao Centro de São Paulo e que não encontramos nas nossas casas.

O desafio: arrumar jeitos de fazer guaches e outros tipos de tintas contando com recursos que estejam mais disponíveis e pertinho da gente.

Pesquisando, descobrimos que o carbonato de sódio pode ser substituído por giz branco comum bem macerado. Pigmentos? Sempre dispomos de terra, café, curry, coloral, sementes e frutas para dar cor às nossas tintas. A glicerina? Mero detalhe.

Além de darmos o pontapé inicial de nossas experiências com a preparação de tintas, estamos reunindo nossas descobertas num catálogo. Pouco a pouco, registramos nossas aventuras no nosso manual, que vai contar com um leque de cores e alternativas para a confecção de tintas tão grande quanto nossa imaginação permitir.




Do guache para a aquarela foi um pulo! A gente acrescentou mais ou menos guache em mais ou menos água e já começamos a encontrar novas tonalidades de tintas e um novo jeito de pintar - mais aguado, delicado, escorregadio, mas é nosso jeito de ampliar nossas possibilidades para traçar e colorir o mundo que vemos.



Trabalho com aquarela.

Oficina de confecção de tintas e materiais 4

A confecção de guache e aquarela despertou desejos de maior envolvimento com outras tintas nos meus grupos e em mim. Muito deve-se ao fato de que é desafiador provar novas e diferentes consistências, tempos de secagem e jeitos de trabalhar. A novidade é o motor da vida. Mas é verdade também que esse envolvimento ganhou muita força e impulso por trazer para nossos dias saídas do espaço, o manuseio e um contato bem próximo com os materiais e processos de fazer as tintas. E todos, inclusive eu, temos achado isso tudo um tanto curioso e um pouco maluco.

Temos viajado um pouco pela História da Arte através dos materiais de época. A têmpera é uma tinta feita de pigmento (cor) ligado com gema de ovo e água. Foi muito utilizada até o final do século XV. E começamos nossas produções por ela, usando os ovos que não paravam de chegar nas mãos das crianças.

Mas além dos ovos, eram necessários pigmentos e fomos levantando possibilidades de cores disponíveis ao nosso redor para usar na confecção das tintas. As crianças foram pensando em possibilidades e, visitando suas cozinhas e ruas novamente, conseguimos coletar diferentes cores de terra e temperos em pó para nossa aventura.

Preparamos as gemas e começamos a misturá-las aos pigmentos.


Quase deu briga! É que todos estavam ansiosos para fazerem sua têmpera e ninguém queria esperar!

Separamos as gemas das claras e fomos misturando os pigmentos com as gemas.


Rapidamente formamos uma palheta bonita de cores.




Decidimos fazer uma pintura de observação do nosso espaço.



É que em breve o nosso espaço atual de trabalho receberá uma interferência e ficamos com vontade de guardá-lo como o conhecemos - na memória, em fotos e nas nossas pinturas...